Fernanda Young © Jairo Godlfus.

A Louca Debaixo do Branco é sobre a construção do amor. O amor idealizado. O amor romântico. A noiva é o sujeito, o verbo e o objeto da minha mais longa sentença. Mas minha noiva representa tanto as mulheres como os homens.

Todos nos “vestimos” para ser amados, e todos temos de lidar com o tempo, que despe as nossas camadas de tules translúcidos, com os quais pensamos disfarçar as nossas imperfeições. Os tais tules dos nossos vestidos de noiva metafóricos são os nossos ritos, cacoetes, trejeitos, piadas, termos, bicos, condições que alegamos serem fruto do zodíaco, da cultura, do caráter, mas que estão bordadas em nossas anáguas como pérolas e fazem parte da nossa couraça: o figurino do show para atrair.Temos um “vestido” para nos olhar no espelho, por que não teríamos um mais empetecado para o olhar do outro? E a beleza está justamente nessa humanidade, imaginar que nunca seríamos flagrados em nosso estado bruto, quando os humores transformam o belo em algo medonho, o singelo, na mais pura mediocridade, a delicadeza, em covardia. O que antes era ingenuidade, ao despir o vestido, parece burrice; força, com a nudez, torna-se brutalidade; comedimento vira avareza; e assim vai. Afinal – e isso é maravilhoso! –, temos os exatos opostos em nós. Podemos ser tudo: generosos, egoístas, atraentes, enfadonhos, carinhosos, agressivos. Basta um girar de botão, um piscar de olhos, uma frase mal dita, uma perspectiva que falha, um desejo negado, um carinho errado, o tempo. Entrevistei várias mulheres e apenas um homem: Roberto de Carvalho. Roberto casou-se com a mais louca de todas, a mais maravilhosa louca, a musa que me inspirou este livro. Explico: A Louca Debaixo do Branco é o meu décimo romance – sim, o defino como um romance. A estrutura, eu corrompi, mas continuo contando a mesma história. Chamava-se inicialmente Eles amam as Loucas mas se casam com as Outras, título que roubei de Rita. Há alguns anos, ela fez algumas camisetas com desenhos dela, e havia uma com essa frase genial. Eu comprei a camiseta e desde então, por anos, pensei nesta máxima: eles amam as loucas mas se casam com outras. E divaguei: mal sabem eles que a louca e a outra são a mesma, basta o vestido ir sendo retirado com o passar dos anos. Melhores são os que casam logo com a louca, direto com ela, a maluca completa que está oculta pelo véu. Aliás, seria ela uma louca, mesmo, ou esconde uma inesperada delicadeza debaixo de sua veste torta? O que há por baixo do que permitimos mostrar?Foi quando decidi que, para contar esta história, tinha que me vestir de noiva. E me despir da noiva. Inúmeras vezes, até que a trama se esgotasse. E que a história deveria ser contada por mais narradores, além da minha usual terceira pessoa. Então comecei a entrevistar mulheres que me contaram sobre o dia em que se casaram. Ao transcrever essas entrevistas, compreendi que os leitores também poderão escrever este livro, preenchendo as lacunas do não dito. Então, o que há de bonito neste romance, bastante incomum na sua estrutura, e absolutamente comum em seu tema, é a verdade que essas noivas ofereceram. Sem temer o tal do ridículo, expuseram suas mágoas, suas falhas, sem pedir nada em troca, somente a delicadeza de colocar iniciais no lugar dos nomes dos envolvidos. Acostumada a me expor, entendo o temor que todas sentiram quando fui embora com as suas vidas gravadas. E agora, quando a exposição no MIS irá receber A Louca Debaixo do Branco, o tal décimo romance, que também chamo de livro-instalação, sei que, como eu, elas sentem medo. Medo e uma espécie de arrependimento. É sempre assim, queridas, é como se casar: bate um frio na barriga, temor de cair logo na entrada da igreja, receio de que o outro não esteja lá, que o vestido rasgue, que alguém levante e diga que tudo isso é uma mentira deslavada. Eu já havia aceitado a vulgar comparação do parto para o ato de lançar uma obra, mas desta vez, nossa, é um casamento. No dia 2 de outubro de 2012, estarei casando no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. E, como nas vésperas de todo casamento, tornei-me uma noiva histérica. Tenho sido irracional, comportando-me de maneira errante, instável, agressiva, sensível demais, carente demais, exausta demais. Estou comendo feito uma louca – temo que o meu vestido não sirva. Já recorri ao I-Ching, ao tarô, aos astros, atrás de previsões que confirmem o sucesso da minha escolha. Escolhi casar de negro, escolhi casar com muitos e muitas, resolvi que quero que tenha cerveja, resolvi que a minha marcha nupcial será da Pitty, resolvi que os fotógrafos do meu álbum serão os melhores e que terei mais que um vídeo, e um filme, e um talk show. Resolvi que o meu mestre de cerimônia será Diógenes Moura, curador de fotografia da Pinacoteca de São Paulo. Também quis, de padrinhos, artistas plásticos. Mas, com medo de passar por tudo isso sozinha, chamei outras noivas para casar junto comigo. E convido a todos que amam, amaram, sofreram, sofrem, aguardam um pedido, não escutaram o tal “sim” redentor, disseram um “não” por equivocado susto, que estejam ao meu lado. Pois se tudo parece incrível, belo, o que há de mais incrível e belo nisso tudo, sinceramente, é que foi feito para sobreviver. E se disserem, e vão dizer, “Que egocêntrica!”, insisto: o que posso oferecer de melhor é o que mais conheço. Eu e meu assunto predileto, o amor. E no amor eu incluo o tempo e a morte.Mas não me perderei seguindo seu rastro, mesmo que no amor, e pelo amor, eu esteja fadada a viver dolorida. Já que nem sei mais de quem é a dor que sinto – se é minha, se é de Maria Teresa, se é de G, de FP, de RJ, de Rita, de Maitê, de Mônica, do Roberto, de HM, de Marta, todos os que me contaram suas histórias, e mais os que conviveram comigo neste ano e meio de trabalho exaustivo, em busca da compreensão que habita abaixo do mito, na verdade que escondemos quando tentamos ser perfeitos. Enfim, o que quero dizer é que nós, os românticos, cafonas ou não, risíveis ou não, tristes ou não, não perdemos nada enquanto seguimos o amor. Porque para segui-lo, antes, nós o inventamos.
Fernanda Young


•Quem é Fernanda Young

Começou sua carreira em 1995 como roteirista do programa televisivo A Comédia da Vida Privada, da Rede Globo. No ano seguinte, Fernanda lançou seu primeiro romance, Vergonha dos Pés. Em 2001, após o lançamento de seu quarto romance, O Efeito Urano, Fernanda retomou a carreira de roteirista de televisão, com Os Normais. Entre 2002 e 2003, Young co-apresentou, ao lado de Rita Lee, Mônica Waldvogel e Marisa Orth, o programa feminino Saia Justa no canal a cabo GNT. Em 2004, lançou uma coletânea poética, Dores do Amor Romântico. Por quatro anos, de 2006 a 2010, apresentou no canal GNT o programa Irritando Fernanda Young, de entrevistas com celebridades. Foi indicada ao Emmy Internacional, de melhor comédia, pelo seriado "Separação?!" (Rede Globo, 2010). É casada com o roteirista e escritor Alexandre Machado, com quem teve as gêmeas Cecília Madonna e Estela May. Tem dois filhos adotivos, Catarina Lakshimi, nascida em 10 de novembro de 2008, e John Gopala, nascido em 21 de julho de 2009.


•Livros publicados

  • 2009 - O Pau - Ed. Rocco
  • 2007 - Tudo que Você Não Soube - Ed. Ediouro
  • 2005 - Melhores Momentos de Os Normais Ed. Objetiva
  • 2005 - Dores do Amor Romântico (poesias) - Ed. Ediouro
  • 2004 - Aritmética - Ed. Ediouro
  • 2001 - O Efeito Urano - Ed. Objetiva
  • 2000 - As Pessoas dos Livros - Ed. Objetiva
  • 1998 - Cartas para Alguém Bem Perto - Ed. Objetiva
  • 1997 - A Sombra das Vossas Asas - Ed. Objetiva
  • 1996 - Vergonha dos Pés - Ed. Ediouro

Como atriz e apresentadora
  • 2012- Confissões do Apocalipse (no ar) – GNT
  • 2011 - Duas Histéricas (como apresentadora) – GNT
  • 2006 a 2010 - Irritando Fernanda Young (como apresentadora)- GNT
  • 2002 a 2003 - Saia Justa (como apresentadora) - Canal GNT
  • 1991 - O dono do mundo.- Jurema (como atriz) - Rede Globo
  • 1989 - Iaiá Garcia - minissérie - Rede Globo


•Trabalhos como roteirista

  • 2011 - Macho Man (seriado)
  • 2010 - Separação?! (seriado)
  • 2008 - Nada Fofa (especial de fim de ano)
  • 2007 - O Sistema (seriado)
  • 2006 - Minha nada mole vida (seriado)
  • 2005 - Super Sincero (quadro do Fantástico)
  • 2004 - Os Aspones (seriado)
  • 2001 a 2003 - Os Normais (seriado)
  • 1995 - A comédia da vida privada


•Cinema

Como roteirista
  • 2009 - Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas
  • 2006 - Muito Gelo e Dois Dedos d'Água
  • 2003 - Os Normais - O Filme
  • 2000 - Bossa Nova (filme)
  • TEATRO

Como autora e atriz
  • 2009 - A Ideia (monólogo)

Como autora
  • 2008 - Vergonha dos Pés